Pular para o conteúdo principal

Retro PC anos 2000 com Windows XP: como e por quê?

Tudo sobre a montagem da minha nova máquina para jogos dos anos 2000!


Já faz uns anos que planejo montar um setup retro para rodar jogos da geração Windows XP. Depois de postergar a ideia por quase dois anos, finalmente pus ela em prática e concluí o projeto no verão de 2026. As ideias sobre o setup final mudaram diversas vezes, e neste artigo falarei o porquê ter um Retro PC e quais os desafios que eu enfrentei ao montar o meu. Talvez ajude alguém a decidir se vale ou não a pena montar um parecido e dar luz aos caminhos que se deve trilhar.

1)     Por que ter um Retro PC?

Primeiramente, por que montar e manter um Retro PC? Não é mais fácil ter um PC moderno e jogar tudo nele? O primeiro problema que enfrentamos ao tentar jogar jogos antigos em uma plataforma moderna é a falta de compatibilidade entre o jogo e o sistema operacional e hardware modernos. A maioria dos jogos não vai nem abrir, e se abrir vai ser cheio de bugs e crashs aleatórios. Algumas empresas soltam patchs de correção, que apenas mitigam esses problemas. Mas a maioria das empresas não estão nem aí com os jogadores que adquiriram a mídia física lá nos anos 2000, eles querem é que você adquira uma nova cópia do jogo remaster/remake e encha os bolsos deles de dinheiro novamente. Se ao menos esses novos jogos fossem fiéis a obra original e respeitassem o título como arte... Isso fora os casos em que os jogos são capados por censura e perca de direitos autorais sobre as músicas

Então por que não criar uma máquina virtual dentro do Windows 11? Resposta: porque os jogos não funcionam, a máquina virtual serviria apenas para você matar uma nostalgia de um sistema antigo. E o dual boot? Pelo menos para o Windows XP não daria certo, isso porque o XP é incompatível com o firmware UEFI presentes nas placas mães modernas e exigência do Windows 11, além de ser incompatível com a partição GPT. Isso fora a inexistência de drivers modernos para um sistema antigo.

Então infelizmente para você rodar jogos antigos de PC de forma decente, é preciso montar um setup para o sistema original da época.


2) Escolha das peças

Partindo desse ponto de que precisamos de um Retro PC, vamos a escolha do sistema. E essa é a escolha mais óbvia. O Windows XP nasceu no ano 2000 e morreu em 2014. Ele reinou soberano por quase uma década, chegando a estar em 80% dos computadores do mundo todo durante certos períodos. Foi um sucesso absoluto, mas isso porque o produto era bom, estável, confiável e elegante. Por isso 99% dos jogos foram lançados e otimizados para esse sistema. Então o nosso Retro PC precisa ser compatível com um Windows XP.

O Windows XP por ser um sistema de 32 bits tem uma limitação na capacidade de memória RAM, ele trabalha com no máximo 3,25GB (4GB teóricos). Então um PC com 2x1GB em dual channel ou 2x2gb estará bem servido. Porém, este que vos fala é um entusiasta do PCismo, decidi colocar 2x4GB na máquina. Sei que boa parte ficará subutilizada, mas futuramente pretendo fazer um dual boot com um sistema LINUX e assim poder acessar a internet com segurança nessa máquina.

Já o processador escolhido foi o Xeon E5450 (3,0GHz, 12MB L2), um quad core adaptado para a LGA 775, esse processador equivale na prática a um Core 2 Quad Q9650, um sonho de consumo para muitos na época. Infelizmente tive que optar por essa gambiarra (que está longe de ser um problema, é apenas o mesmo processador com uma solda nos pinos e um nome diferente) pois o Q9650 virou artigo de colecionador.

Se você estiver pensando em montar um, recomendo pegar no mínimo um Core 2 Duo da Intel ou equivalente da AMD. Com dois núcleos físicos o processador já vai dar conta de todos os jogos da primeira metade dos anos 2000 e se aventurar com boa parte dos jogos da segunda metade da década.


A placa mãe eu decidi que queria uma com bastante conectores SATAs, pois iria colocar ao menos dois drives de DVD, e que fosse de uma marca confiável da época (Asus, Gigabyte, ou MSI). Esse vai ser um dos itens mais caros do setup, achar placa mãe antiga em bom estado é difícil, é uma peça de hardware fácil de quebrar se não for bem armazenada. Acabei encontrando uma Asus P5P43TD por um bom preço, ela não tem bom suporte para overclock, mas deve dar para o gasto. Importante pontuar que ao recebê-la, realizei uma manutenção preventiva, afinal é uma placa de 19 anos de idade, troquei a pasta térmica e limpei as entradas com limpa contatos. Também adicionei alguns dissipadores de alumínio em seus VRMs pensando em no futuro brincar de overclock.

Seja qual for o conjunto de mobo, processador e memória que deseje adotar, recomendo que pegue um kit LGA 775 ou AM2, até no máximo um AM3+ ou 4ª geração da Intel. Sendo que obviamente esses últimos são absolutamente overkill para um Retro PC anos 2000, e só devem ser considerados se o preço estiver muito bom ou estiver pensando em fazer Dual boot com outro sistema mais moderno. Apenas lembre-se da limitação de RAM, no máximo pentes de 4GB.

A placa de vídeo foi o item mais difícil de escolher. Primeiramente optei por uma GTX 560ti, é uma placa lançada em 2011 e que tem 1GB de VRAM. Há relatos que o Windows XP em alguns jogos não reconhece placas com mais de 1GB, então essa placa seria perfeita. O problema é que no Brasil ela teve poucas vendas, não consegui encontrar uma em bom estado e por um preço JUSTO. Subi o degrau e cogitei uma GTX 750ti e depois uma GTX 950. Ambas possuem 2GB de VRAM, porém os relatos são tão poucos que preferi arriscar. No final não peguei nem uma das três, apareceu uma oportunidade de pegar uma GTX 960 2GB em bom estado por um preço justo e foi isso que eu fiz, ela é a última placa da Nvidia a receber drivers oficiais para o Windows XP! Já do lado da AMD - que não curto muito as das gerações antigas por conta do alto consumo de energia -, as últimas a receber drivers foram as HD 7000. Então esse deve ser o seu teto!

Porém, se quiser um PC mais humilde e com foco nos jogos da primeira metade da década, uma 8800GT ou 9600GT cabe bem. Essas praticamente não têm preço fixo, pois não tem mais uso em um PC moderno. Algumas viraram “sucata”. É uma boa oportunidade para garimpar lotes no mercado de usados e economizar uma grana.

Uma coisa que eu decidi que jamais abriria mão foi o SSD. Eu sei o quanto era sofrível usar um computador com o sistema instalado em HDs mecânicos. Disso eu não sinto nostalgia. Então um SSD é um item que eu recomendo pelo menos para o sistema principal. Só tem que tomar cuidado de desabilitar todo e qualquer tipo de tarefa de desfragmentação do Windows, pois isso pode danificar o SSD.


Outro item que me deu dor de cabeça na escolha foi o monitor. Eu queria de todo jeito um monitor CRT. Fiquei meses garimpando e não encontrava nada na minha região, apenas peças surradas e defeituosas. Cheguei até a pesquisar em outros estados, mas ninguém queria enviar um trambolho de quase 20kg por correios. Então decidi descer um degrau e pegar um monitor LCD. Mas não é qualquer monitor, é um monitor na proporção 5:4! O VST 17! Com uma resolução de 1280x1024, ele equivale a um top de linha, e ainda tem uma frequência de até 75Hz (apesar que na caixa só diz 60Hz). Seus únicos defeitos são a tela que não possui antirreflexo e o painel ser TN.

Segue a lista do total de itens desse setup:

  1. Monitor VST 17 (recomendo que escolha um com proporção de tela 4:3/5:4, pois esse é o padrão da época);
  2. Teclado e mouse Keedi TEC 812 (gostaria de pegar um antigo da época, mas a minha bancada é pequena e precisava de espaço, esse cabe como uma luva);
  3. Mousepad compacto com almofada para o pulso;
  4. Mouse mecânico A4 Tech SWW-35 dos anos 90 (esse eu tinha grandes expectativas, mas no meio da instalação descobri que ele viera com defeito);
  5. Caixas de som Stereo comuns (padrão anos 2000, mas futuramente quem sabe eu invista em caixas da Edifier e em uma placa de som EAX);
  6. Placa mãe Asus P5P43TD LGA 775 (que tive que modificar a BIOs para ela poder reconhecer os Xeons);
  7. Xeon E5450 (veio da China, é equivalente ao Q9650);
  8. 2x4GB DDR3 1333MHz da Kllisre (já tive vários pentes dessa marca, sempre faça uso do Dual Channel);
  9. GTX 960 2GB Gigabyte Windforce (é uma placa overkill, mas paguei um bom preço por ela);
  10. SSD SATA Lexar NS100 256GB (para o sistema principal e jogos);
  11. SSD SATA Kingston A400 120GB (para um sistema Linux secundário);
  12. HD Western Digital Green 500GB (para backup ou uma batocera);
  13. Air Cooler Rise Mode G700 (tem uma instalação terrível, é um dos poucos sendo vendidos atualmente com suporte a LGA 775);
  14. 2x Drives óticos (são baratos e frequentemente dão defeito, bom ter um de sobra);
  15. Fonte Corsair RM550X (a qualidade dessa fonte é indiscutível, não brinco quando o assunto é energia);
  16. 4x fans de 120mm da Rise Mode (fans baratas para fazer algum vento e ter estilo);
  17. Gabinete Aerocool Aero 500 (gostaria de pegar um gabinete top de linha das antigas, mas todos estavam caros, esse eu paguei apenas R$60).

3) A montagem

Estou tão acostumado com os gabinetes modernos que senti dificuldades em fazer tudo encaixar no Aero 500 que é um gabinete de 2015. Mas deu tudo certo, fiz umas gambiarras com arames para prender as ventoinhas na frente do gabinete, colei o segundo SSD com fita e velcro e deixei um ninho de cobras atrás da placa mãe. Mas ele ligou e é isso que importa.

O que mais me deu trabalho foi o air cooler que tive que virar para cima, pois senão ele bateria no dissipador da north bridge da placa mãe. Ele vai perder eficiência, pois os ventiladores trabalharão contra a gravidade, mas creio que não terei problemas de aquecimento, pois esse já é um cooler overkill.

Também enfrentei vários demônios ao instalar os cabos do painel frontal. Nessa batalha é importante você ter em mãos o manual da sua placa mãe.

4) A instalação

Consegui uma ISO do Windows XP SP3 em português e gravei em um DVD virgem. A instalação foi simples e me trouxe boas recordações, pois na época tínhamos que formatar a máquina de tempos em tempos para melhorar o desempenho. Como a instalação foi em um SSD, foi um pouco mais rápida que antigamente, mas ainda sim limitada por conta da velocidade de leitura do DVD.

É importante pontuar que o Windows XP aceita apenas como formatos de partição de arquivos o FAT32 e o NTFS. O primeiro era o padrão dos anos 90, já o segundo é mais moderno (para a época, hoje em dia o padrão é o GPT) e combinava melhor com o XP. Então formate o seu SSD nesse formato antes de instalar o Windows nele.

Depois da instalação do sistema, tive que correr atrás dos drivers da placa mãe e placa de vídeo. Por isso é importante escolher placas de marcas conhecidas, pois assim você não ficará dependente de drivers genéricos. 

5) Teste do sistema

A estética azul com verde do Windows XP é realmente hipnotizante. Dá para entender o porquê de o sistema ter feito tanto sucesso, ele é muito bonito, as janelas não são mais pontudas e rústicas como nos sistemas anteriores, tudo é arredondado e sofisticado.

Depois de alguns ajustes na sensibilidade do mouse e verificação de tudo estar Ok, abri alguns programas clássicos que usava nas antigas: MSN, Internet Explorer, Wordpad, Bloco de notas, Paint, Paciência spider, Pinball, Campo minado... E tudo está abrindo na velocidade da luz graças ao SSD, que mesmo limitado pela porta SATA II (velocidade teórica de até 300MBs), entrega o suficiente para deixar o sistema fluído.


O software mais icônico para mim é o jogo Paciência Spider. Isso porque era o jogo favorito do meu falecido avô. Ele tinha um PC na sala e passava horas jogando paciência e ouvindo rádios online. O vício era tanto, que mesmo depois que o PC morreu e ele ficou só com o celular, ele encontrou uma versão do jogo para celular para jogar enquanto assistia novelas. Gostaria que ele ainda estivesse aqui para desfrutar uma partida de paciência no meu Retro PC.

6) Os jogos

Eu tenho uma boa coleção de jogos em mídia física de PC. A maioria encalhado pois não funciona bem no PC moderno, mas agora poderei finalmente desfrutá-los novamente.

A instalação de um jogo em mídia física é bem demorada, principalmente as expansões e pacotes de objeto do The Sims 2. Não vou me alongar muito, se quiser ver as instalações e detalhes da mídia e gameplay, deixarei no final deste artigo um vídeo de quase 3h da montagem e testes do Retro PC.

Porém, eu preciso alertar que alguns jogos lançados a partir de 2008 vinham com uma trava no jogo que só destravava após uma verificação online. O problema é que o Windows XP não é mais seguro se conectar a internet devido as falhas de segurança, e mesmo que você faça essa loucura (eu fiz por 30min) os servidores dos jogos não estão mais online. Em outras palavras, a sua mídia física está morta! Mas, calma! É possível salvá-las! Basta um pouco de pesquisa na internet... Há patchs não oficiais que desabilitam essa trava, foi assim que consegui destravar o Crysis Warhead e o GTA IV.

Outra coisa chata é que os jogos exigiam que o disco estivesse no drive para poder funcionar, igual funciona nos consoles. Há um jeito de burlar isso, basta substituir o executável do jogo por um modificado. Pesquise nos sites de busca o nome do jogo e adicione no final: “Patch NO CD” ou “Patch NO DVD”.


E o desempenho dos jogos? Como esperado, tudo rodou liso. Com exceção do GTA IV que aparecia com umas quedas para 24fps, mas isso deve mais a má otimização do jogo do que ao hardware. O próprio Crysis que é super temido por ser muito pesado rodou na casa dos 60fps.

Tive problema apenas com um jogo: Grand Theft Auto de 1997. O jogo funcionou inicialmente, mas depois de reiniciar a máquina algumas vezes ele começou a crashar. Vou tentar reinstalar para vê se melhora, mas acho bom comentar isso, pois apesar de ser uma máquina com o objetivo de evitar problemas de incompatibilidade, os problemas ainda continuarão existindo, só que em menor quantidade.

7) Mas vale a pena?

Para mim valeu muito a pena, é quase um sonho realizado. Poderei jogar os meus jogos preferidos sempre que quiser e com a experiência original. E ainda tenho espaço para conhecer outros grandes jogos que deixei passar por falta de oportunidade.


Mas preciso ser honesto, montar um PC desse não é fácil. É preciso muita pesquisa sobre os hardwares antigos para não comprar nada que seja incompatível. Além disso, também exige paciência para garimpar as peças nos mercados, pois dificilmente você encontrará um PC do jeito que você quer já montado. Por isso é fundamental que você goste um pouco de informática e tenha certo entusiasmo pela “parte chata”, pois será preciso passar por ela, e a forma como você passa por ela definirá o resultado da jornada.

Em resumo, um Retro PC é uma máquina apenas para os corajosos aficionados por informática que gostam de se aventurar em hardware antigo e complicado, é para os entusiastas que gostam de viver a experiência fiel e original de um bom game, e para os nostálgicos que gostam de relembrar os tempos de ouro.



Comentários

Mais visitadas

Análise do Headset Fantech Harmony Pro WHG02P

Um headset wireless com um excelente custo-benefício. Por muito anos usei como meu headset principal o Astro A10, um headset com fio de uma marca consagrada no mercado. Ele tem suas qualidades, mas a sua frágil construção me obrigou a pesquisar no mercado um substituto. Dessa vez queria um fone com conexão wireless, não queria a limitação dos fios e queria algo que permitisse alternar entre PC e Celular. Eis que encontro três opções custo-benefício no mercado: Logitech G435, Baseus GH02 e o Fantech Harmony. Inicialmente optei pelo G435, em razão de confiar na marca. Mas um problema na entrega da loja fez com que ele não chegasse a minha casa. Então pulei para o Baseus GH02, tido por muitos como o rei do custo-benefício dos headsets wireless. Ele chegou e pude usá-lo por aproximadamente uma semana. Infelizmente a minha unidade veio com um defeito chato: um ruído permanente e baixo. Tive que devolver e pedir o reembolso. Meses mais tarde, decidi comprar o Fantech Harmony. Entretanto, ant...

A Evolução dos Gabinetes

De caixa de armazenamento à peça de decoração, a evolução dos gabinetes foi brutal. O gabinete é o periférico que sempre leva menos importância em uma build, o usuário sempre vai priorizar investir mais em um bom processador ou em um bom monitor do que em um gabinete top de linha. Porém, a caixa de metal que armazena componentes sempre estará presente em uma montagem, e essa caixa nem sempre foi a mesma, passou por diversas mudanças ao longo dos anos. Neste artigo irei vos mostrar o resultado das minhas pesquisas acerca da evolução dos gabinetes. O design dos gabinetes foram sendo alterados ao longo do tempo por conta de três fatores: desenvolvimento tecnológico; necessidade e estética . As tecnologias somem e voltam de acordo com a moda , por exemplo: durante um tempo foi moda ter uma controladora de fans, alguns gabinetes acoplaram reguladores de voltagem junto ao painel frontal para facilitar o trabalho, mas depois de um tempo as placas mães e fans evoluíram e o controle das fans f...