This War of Mine abandona soldados e batalhas épicas para contar a história daqueles que apenas tentam continuar vivos.
Em 2020, devido ao surgimento da Covid 19, vários governos passaram a adotar lockdowns forçados nas cidades, obrigando pessoas a ficarem semanas presas sem poder sair de casa. Para manter a ordem das restrições, foi feito uma ampla campanha na mídia para aterrorizar as pessoas sobre os supostos efeitos da nova doença. Foi nesse cenário que o assunto sobrevivencialismo explodiu na internet.
Sobrevivencialismo nada mais é que a prática de se estar preparado para situações de crise como enchentes, guerras, falta de alimentos e etc. O sobrevivencialista é aquele que busca ser autossuficiente e não dependente do sistema, faz uso de habilidades práticas e possui um arsenal de ferramentas em casa para usar em caso de emergência.
Um dos jogos mais recomendados pela comunidade de sobrevivencialistas, é This War of Mine, um jogo indie lançado em 2014 e que fala de guerra. Mas a guerra aqui não é aquela retratada pelos jogos mainstream, em que controlamos soldados e armas de guerra, aqui nós somos o lado fraco da corda: a população civil.
A guerra é sempre um acontecimento trágico, já estudei muito acerca de muitas delas, o livro que mais me marcou foi Vozes Roubadas, em que há uma coletânea de diversas cartas e diários de guerra. Na guerra é mais provável que sejamos um simples civil tentando sobreviver do que um herói que vai enfrentar inimigos nas fronteiras. É estudando o passado que percebemos o quão frágil é a vida humana.
This War of Mine traz uma jogabilidade inovadora, nosso objetivo é sobreviver 40 dias em meio a uma cidade sitiada. Podemos escolher um personagem dentre vários, cada um com uma pequena descrição sobre sua personalidade e sobre o que estava fazendo naquela cidade.
Já iniciamos com uma casa que será a nossa base. Durante o dia é perigoso sair, pois há atiradores atirando em qualquer coisa que se mexa. Então precisamos realizar aprimoramentos dentro da base como construir mais uma cama, descolar um rádio para ouvir notícias da região, produzir lenha para manter a lareira acesa, cozinhar alimentos, preparar armadilha para ratos e etc.
Durante a noite podemos escolher entre dormir e descansar, ficar acordado e vigiar a base, ou sair de casa e tentar achar recursos em outros lugares. Como não iniciamos uma campanha sozinho, podemos colocar os personagens cada um em uma função.
A versão definitiva do jogo incluiu três histórias mais desenvolvidas, chamadas de Stories, acredito que essa seja a melhor experiência com o game. Mas seja com a definitiva ou com a normal, o enredo do jogo não é o ponto mais forte, pois há pouco texto.
O grande diferencial desse jogo é a profundidade da simulação de sobrevivência, precisamos estar atentos a vários fatores para conseguir manter nossos habitantes vivos. Nas primeiras jogatinas é provável que alguém morra, mas talvez se você já for um sobrevivencialista experiente consiga se sair melhor do que eu. É importante sabermos gerenciar bem os recursos, 3 dias sem comer e seu personagem pode acabar se estressando e fugindo de casa. Medicamentos também são necessários, uma ferida aberta não tratada pode infecionar e levar o sujeito a morte.
Durante a noite é que o bicho pega, pois temos a opção de sair de casa e ir atrás de recursos que certamente precisamos. O problema é que podemos encontrar todo tipo de pessoa lá fora, desde pessoas bondosas que podem nos ajudar, a bandidos que irão querer nos fazer mal. Também ficamos diante de dilemas morais pesados, nossos personagens estão com fome e doentes, podemos roubar os alimentos de um casal de idosos ou arriscar passar mais um dia na penúria. O que você faria na vida real? E se uma pessoa bate na sua porta desesperada pedindo ajuda, você doa algo ou finge que não tem? São essas escolhas que tornam o jogo complexo.
Além disso, também precisamos cuidar do mental dos personagens, fazer escolhas moralmente duvidosas podem deixá-los tristes, e a tristeza pode levar a depressão.
Os cenários do jogo são pesados, o clima é de desolação e tristeza. As casas foram bombardeadas, há sujeira em toda a parte e as pessoas estão desesperadas. E o que deixa mais pesado é a trilha sonora, de dia é melancólica, mas a noite quando invadimos algum lugar, é de tensão. Temos medo de entrar em um local desconhecido e nos deparar com algo que não gostaríamos de encontrar.
Em algumas casas encontramos cartas e bilhetes deixado para trás, porém senti falta de mais textos nesse jogo, acho que faltou folego por parte dos roteiristas.
Uma das coisas mais legais é que temos a possibilidade de construir um rádio, e com ele podemos saber como é que estão as coisas lá fora. Em uma situação de crise, uma das coisas mais valiosas é a informação. Com ela podemos nos antecipar e nos preparar melhor para o que há de vir.
A arte do jogo é decente e cumpre seu papel, apesar de ser um estúdio pequeno, eles mandaram bem. Não é algo que salta os olhos. Em algumas situações você pode confundir um objeto com outro, a visão 2d não é das melhores.
Uma das coisas que me deixou frustrado foi a falta de um manual. Simplesmente há pouca informação sobre o funcionamento dos itens! Precisamos aprender na base da tentativa e erro. O problema é que desperdiçar recursos com uma coisa que não sabemos o que é pode custar a sobrevivência dos personagens.
Uma situação bem chata foi a de uma campanha da DLC, em que controlamos um casal e um deles está de cadeira de rodas. Esse cara ficou doente e precisava de remédios, o problema é que a farmácia ficava no andar de baixo e ele não conseguia descer as escadas. A solução seria a sua parceira dar os remédios para ele. Mas quem disse que o jogo te dizia como fazer isso? Levei game over, só depois de um tempo é que descobri que era preciso deixar o mouse parado no enfermo enquanto controlamos um outro membro saudável, e aí aparecerá a opção de dar comida ou medicamentos.
Em termos de desempenho o jogo é show, roda liso em qualquer máquina. Testei no meu PC potente e em um notebook com placa onboard. Além disso, a quantidade de bugs encontrados foi zero.
Enfim, This War of Mine é um jogo de simulação obrigatório para todo aquele que está entrando no mundo do sobrevivencialismo, ou então simplesmente para aquele que gosta do tema guerra e deseja ver o outro lado da história. Esse não é um jogo com fator replay forte, pois os cenários sempre vão se repetir, quebrando um pouco a imersão ao iniciarmos o jogo novamente, se transformando em um mero jogo de construção e gestão de recursos. Mas a primeira experiência é a que importa, e essa vale muita a pena.
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