O romance dramático que se passa na guerra da secessão assistido quase 90 anos após o seu lançamento. Uma opinião sincera.
Gone with the Wind (E o Vento Levou em BR ou E Tudo o Ventou Levou em PT) é um filme lançado em 1939 e vencedor do Oscar daquele ano, é até hoje a produção de maior receita de todos os tempos se considerarmos o ajuste da inflação.
Eu conheci essa obra em 2020, quando naquele ano alguns ativistas woke criaram uma campanha para boicotar a exibição do filme em plataformas de streaming, sob o pretexto de que o filme incentivava o racismo. Como eu sou contra toda narrativa woke, me interessei logo pelo filme, cheguei a baixar e colocar em um pen drive mas nunca assisti. Confesso que me assustava sempre com as 4h de duração.
Na minha última viagem para São Paulo conheci alguns sebos no centro, e lá havia diversos DVDs originais sendo vendidos a preço de banana. Encontrei uma cópia de E o vento levou e trouxe para casa.
Me espanto logo de cara em saber que o filme não foi gravado em preto e branco, mas sim a cores! Foi usada uma técnica chamada technicolor que produzia cores vivas e vibrantes! Imagine as pessoas na época acostumadas a ver filmes em preto e branco e do nada anunciam um filme de 4h colorido! Isso certamente contribuiu para o sucesso absoluto da obra.
A edição da mídia do meu DVD é de 2009, possui a opção de áudio digital remasterizada para 5.1 e original em mono. Optei pelo áudio remasterizado, pois o meu sistema de som é 2.1. A imagem ficou linda na minha TV de tubo de 21’ da Philips, como o filme é original em 4:3, a tela ficou toda preenchida.
Ele foi filmado em uma resolução muito baixa, creio que em tvs menores e com baixa resolução (como foi o caso da minha) consigam reproduzir melhor a imagem. E falando em imagem, naquela época não havia CGI, os efeitos se limitavam a fundo verde e o desenho à mão feito frame a frame! A cor dos olhos da atriz, por exemplo, é originalmente azul, mas foi pintado para o verde, para que se adeque a personagem original do livro de Margatet Mitchell.
Em algumas cenas é possível notar as limitações da época, por exemplo: em certa cena os personagens estão andando em uma carruagem e é possível notar que o fundo na verdade é uma filmagem transmitida por fundo verde. Obvio que somente um olhar atento notaria isso, não é algo que desabone a obra, mas é importante deixar registrado.
O meu DVD não possuí dublagem em PT/BR, então assisti legendado. O volume dos médios é bem baixo, então para poder entender as conversas, tive que aumentar consideravelmente o meu som.
A partir deste ponto, haverá fortes spoilers sobre a história.
A história fala sobre uma moça jovem chamada Scarlett O’Hara, que vive em Tara na Georgia, sul dos Estados Unidos, ela é filha de um rico proprietário de terras. Logo no começo, é apresentado para nós uma personagem alegre, mimada, extremamente bela e cortejada por todos os rapazes da cidade.
A atriz que interpreta a Scarlett, Vivien Leigh, estava no auge de sua beleza. Mas não era só bela, também atuou estupendamente bem.
Scarlett tem uma paixão platônica por um sujeito chamado Ashley, que está prometido em casamento para sua prima Melanie. Elas possuem personalidades contrastantes, enquanto a primeira é bondosa e inocente, a segunda é perspicaz e manipuladora.
Scarlett mantém em segredo a sua paixão por Ashley, até o dia que resolve se declarar para ele na esperança de conquistá-lo, mas recebe um grande não e fica desolada. Em uma atitude imatura, resolve se casar com um jovem mancebo, irmão de Melanie, na esperança de fazer ciúmes a Ashley e preencher o vazio em seu peito.
No meio tempo, conhece um sujeito chamado Rhett Butler, interpretado por Clark Gable. Rhett era tão perspicaz quanto Scarlett, e fugia dos padrões sociais da época, identificando-se como “o tipo que não casa”. Mas Scarlett o rejeita de início, e Rhett a acha muito engraçada, mas admira a personalidade da moça, ele enxerga nela uma força interior que talvez nem ela sabe que tem.
A guerra estoura, norte contra sul. Todos os homens do sul são convocados para defender suas terras contra os Ianques, nome que se dava aos nortistas, e entre eles vão o jovem marido da Scarlett e o marido de sua prima, o Ashley.
Nesse ponto o filme fica muito interessante. Pois é mostrado os desastres da guerra, a cidade recebendo ataques de canhões, milhares de soldados feridos e internados, casas invadidas pelos Ianques e saqueadas. Pessoas fugindo, caos total. O filme consegue passar todo o sentimento de tensão e caos de um período de guerra, isso sem precisar usar efeitos especiais de computador. Há inclusive uma cena insana de uma mansão pegando fogo e explodindo.
Scarlett que havia se mudado de Tara para Atalanta após receber a notícia da morte de seu marido na guerra, se vê obrigada a trabalhar como enfermeira, mesmo sem ter prática. A sua prima Melanie está grávida, a cidade está sendo invadida e ela não tem empregados para ajudá-la, quer dizer, ela tinha uma jovem escrava, a tola e engraçada Prissy, interpretada pela atriz Butterfly McQueen.
Sobre a escravidão retratada no filme... Algumas pessoas criticam a história duramente por conta disso, dizem que está sendo romantizado. Eu não vi esse problema todo que alegam, o filme apenas retrata uma época longínqua, época em que a escravidão era vista como “normal” e habitual. Sem julgamentos morais, apenas uma retratação histórica. Ademais, muito se fala no sofrimento dos escravizados, mas a verdade é que o sofrimento não foi igual para todos, e isso consta em diversos registros históricos, inclusive no Brasil. Algumas famílias tratavam os escravos muito bem, no caso do filme, a família O’Hara é Irlandesa, ou seja, Católicos, eram mais caridosos que o normal.
Sobre os atores e personagens negros no filme, nenhum recebe grande destaque pois a história não é sobre eles, é um romance dramático e a história vai girar em torno do casal. A personagem negra que recebe mais destaque é a empregada da casa, chamada de Mammy, interpretada pela Hattie McDaniel, que chegou a ganhar o Oscar de melhor ator coadjuvante. Mammy é uma personagem fantástica, é uma escrava, mas com uma personalidade forte, ela criou a Scarlett desde pequena, e exerce certa autoridade sobre ela, dando broncas e conselhos. Quando a vi pela primeira vez, me lembrei de certas figuras de minha vida, uma mulher sem estudo, mas com conhecimento de vida e muito companheira.
O problema está talvez no pano de fundo da história, a guerra da secessão. Ela foi contada do ponto de vista do perdedor.
Enfim, Scarlett se vê obrigada a fugir de Atalanta com uma Melanie estraçalhada pela gravidez, pede ajuda ao galante Rhett Butler, que a ajuda guiando a carruagem. A partir daí nascia a fagulha de amor entre esses dois personagens.
Ao retornar para Tara, a nossa protagonista encontra uma cidade em frangalhos, sua casa, apesar de estar de pé, foi saqueada, sua mãe morreu e seu pai está louco. Quase todos os empregados da casa fugiram. Não tem comida na dispensa, não há dinheiro, os impostos aumentaram. Há fome, dor, medo.
A garota mimada e rica, que fazia todos ficarem a seus pés, se vê na lama, tendo que catar algodão com suas próprias mãos para se reerguer. A Scarlett é forte, determinada, e fará de tudo para se levantar. Inclusive roubar o pretendente da sua irmã e se casar com ele para conseguir segurança financeira para não perder os negócios do pai.
A protagonista claramente não é uma boa pessoa. Torcemos por ela, sentimos empatia, mas a mulher é uma pilantra. Usa de manipulação para conseguir o que quer, passa por cima dos outros e é extremamente egoísta.
Com o fim da guerra, vemos uma Tara se reerguendo a passos lentos. O cenário vai mudando aos poucos. Ashley está de volta, mas rejeita a Scarlett mais uma vez, a tola ainda insiste em nutrir uma paixão de quando era jovem. Apesar de mais madura, esse sonho ainda persiste.
Seu segundo marido é morto em uma emboscada, ela se vê viúva mais uma vez. É aí que Rhett Butler finalmente aparece para pedi-la em casamento, dando aquele beijo de cinema.
Os dois são muito parecidos. Mas só um ama de verdade, o garanhão finalmente pendurou as chuteiras e conseguiu o seu troféu, ao passo que a moça conseguiu o milionário supremo que realizará todos os seus desejos..., mas a imagem do Ashley ainda permeia em sua mente.
Essa parte do filme é extremamente irritante. A mulher foi rejeitada mais de uma vez pelo sujeito, se casou três vezes e ainda está infeliz. Esse é o tipo de pessoa que ninguém quer por perto, pois ela só pensa em si mesma, não pensa nas consequências, deseja ardentemente algo que não pode ter.
A galante Rhett se frusta ao saber que sua amada não consegue corresponder o seu amor. E depois de mais alguns acontecimentos, a Melanie falece e o Ashley finalmente está livre, pronto para se casar mais uma vez.
Scarlett agora pode realizar seu grande sonho. Mas, vejam só, agora que ela possui o seu grande desejo, percebe que tudo era uma grande ilusão, e quem ela realmente ama esteve sempre ao seu lado, mas por orgulho e egoísmo o escanteou.
Entretanto, no final, Rhett cansado de ser paciente e esperar por um amor não correspondido, diz não a sua amada e vai embora. Scarlett se encontra chorando na escada, pois tudo foi culpa dela, muito arrependida, promete a si mesma que irá recuperar o seu grande amor.
Honestamente eu fiquei muito frustrado com esse final. Eu sei que a mensagem passada é de que é possível se reerguer mesmo em situações difíceis, como a protagonista que chegou a passar fome e prometeu a si mesma que nunca mais iria e ela conseguiu isso, e que agora que perdeu o marido promete que irá recuperá-lo. Está implícito para todos que ela vai conseguir reconquistá-lo, ela é capaz disso, mas fiquei frustrado pois desejava que isso fosse explícito! Sim, gostaria que fosse um final mais clichê.
E claro, a Scarlett é uma manipuladora, é justo que ela sofra, pois ela fez muitas pessoas sofrerem ao longo da história. Ela é tão manipuladora que enganou até este que vos fala, e eu nem faço parte da história!
Apesar da frustração final, horas depois fiquei com uma sensação estranha, queria assistir ao filme novamente. Essa sensação eu só tenho quando o filme atinge níveis estratosféricos de qualidade. É pura intuição, mas não tenho como não dizer que este é sim, uma obra prima e merece todos os aplausos possíveis.
E sobre o nome do filme? O que o vento levou afinal? O ventou levou o velho sul, um período em que a PERSONAGEM (e não a sociedade) era feliz, foi embora o idealismo da juventude, e também aquilo que ela não soube valorizar.
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